A epidemia contribui para agravar os efeitos da guerra comercial e para o recuo da globalização Um morador de Wuhan caminha em frente a um supermercado com máscara e sacola plástica em meio a surto de coronavírus STR/AFP O mundo continua perplexo com o modo como a China tem lidado com a nova variante do coronavírus, o Covid-19, que fez ontem sua segunda vítima fatal fora do país, no Japão.

Não bastasse a dificuldade dos chineses para tranquilizar a população mundial sobre os riscos reais do vírus, o segundo impacto da epidemia começa a ficar claro: o coronavírus deverá provocar contração na economia global pela primeira vez desde a crise financeira de 2008. A epidemia tem um efeito duplo na atividade econômica.

Primeiro, várias fábricas chinesas continuam fechadas, mesmo depois do final do feriado do Ano Novo Lunar na última segunda-feira.

O efeito-cascata mantém paralisadas linhas de produção automitiva no Japão (Nissan), na Coreia do Sul (Hyundai) e até na Europa (Fiat Chysler). Empresas aéreas e transportadoras navais resistem a retomar o fluxo normal de pessoas e mercadorias.

Contêineres cheios se acumulam nos portos, sem poder seguir ao destino.

O turismo para a China simplesmente evaporou.

Chineses também deixaram de viajar para fora.

Outros países da Ásia, como Hong Kong ou Taiwan, foram afetados. O segundo efeito da epidemia é agravar as consequências da guerra comercial.

As cadeias de suprimento que passavam pela China vinham sendo questionadas, diante da incerteza provocada pela batalha tarifária.

Com a epidemia de coronavírus, uma postura ainda mais cautelosa deverá tomar conta do planejamento das empresas e tende a provocar um recuo ainda maior no comércio global. A ineficiência tende a reduzir a capacidade de crescimento e estender o impacto do vírus para além dos meses que a epidemia durar.

Quase 50 mil empresas estrangeiras mantêm filiais nas províncias afetadas pelo vírus, onde cerca de 60 milhões de pessoas continuam sob quarentena forçada.

No resto do país, a situação não é tão diferente.

A consultoria Trivium estima entre 26% (Sichuan) e 70% (Xangai) a quantidade de empresas funcionando normalmente.

Supondo que, como têm dito os analistas, leve entre seis e oito semanas para a atividade econômica recobrar um mínimo de normalidade, o primeiro trimestre terá sido perdido.

A burocracia chinesa, que exige inspeções do governo para autorizar a retomada da atividade, tende a atrasar a normalização ainda mais.

Filas de funcionários medindo a temperatura já são corriqueiras. A normalização não trará, contudo, tudo de volta ao ponto anterior à epidemia.

Contratos de longo prazo negociados agora sofrerão o impacto do novo risco (e terão custo maior).

A paralisação do desenvolvimento de novas tecnologias atrasará o lançamento de novos produtos, em particular no setor de eletrônicos. A epidemia também aniquila toda a capacidade chinesa de cumprir com os termos da trégua na guerra comercial, acertados em janeiro com os Estados Unidos.

Já difícil, o compromisso chinês de comprar US$ 200 bilhões em produtos americanos nos próximos dois anos se tornou absolutamente inviável. O efeito da paralisia chinesa nos mercados internacionais de óleo e gás vem sendo estimado em US$ 50 bilhões.

A primeira fase do acordo com os americanos previa um aumento de 275% nas compras chinesas de energia.

Ao todo, a China havia se comprometido a importar US$ 52,5 bilhões desse setor nos próximos dois anos.

Agora, será impossível.

A mesma dificuldade se estenderá ao setor agrícola. No momento em que a epidemia estiver contida, é natural que a atividade econômica seja retomada em níveis mais robustos.

Até lá, porém, é provável que os mercados globais comecem a adquirir uma outra conformação, menos integrada, menos dependente da China e menos eficiente.

O coronavírus terá então contribuído para acelerar o recuo da globalização, já combalida pela guerra comercial e pelo nacionalismo que se espalha pelo mundo.