Em 10 de novembro, a Espanha completa a marca de quatro eleições em quatro anos.

A crise na Catalunha e os efeitos da recessão de 2008 estão entre as explicações para essa situação.

Os principais candidatos das próximas eleições gerais: da esquerda para a direita, Pablo Casado (PP), Pedro Sánchez (PSOE), Santiago Abascal (Vox), Pablo Iglesias (Podemos) e Albert Rivera (Ciudadanos) BBC/Getty Images A política espanhola está paralisada e ninguém parece ter a solução para desbloqueá-la.

A próxima eleição na Espanha, em 10 de novembro, é a quarta desde dezembro de 2015. O país está fragmentado.

Além da tradicional oposição entre esquerda e direita, há divisões nos grupos e isso está minando as chances de consenso. Depois de vencer por maioria insuficiente para formar um governo nas eleições de 2015, o conservador Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy só conseguiu governar depois de novas eleições em 2016. Isso foi possível devido ao apoio do partido de centro-direita Ciudadanos e à abstenção de grande parte do Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Impasse político perpetuado na Espanha No entanto, a aventura do Partido Popular durou dois anos.

Em maio de 2018, o secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, ganhou uma moção de censura contra Rajoy e tomou seu lugar como presidente do governo — como os espanhóis se referem ao cargo de primeiro-ministro. No entanto, Sánchez governou com pouco apoio e, depois de sua proposta de orçamento não contar com o apoio do Congresso, ele convocou eleições novamente.

A eleição, realizada em abril de 2019, deixou o PSOE como vencedor sem uma maioria absoluta e um Parlamento muito dividido. Conquistar maioria parlamentar foi impossível mais uma vez. Para as próximas votações, as pesquisas preveem um resultado semelhante ao de abril e, se a pouca vontade política de firmar acordos não mudar, a dificuldade persistirá. Especialistas concordam que, para desbloquear o nó institucional, devem ser resolvidas situações como as do nacionalismo catalão, as "cicatrizes" da grande recessão econômica de 2008 e a reconciliação entre grupos políticos do mesmo espectro ideológico. A BBC explica, em quatro pontos, por que a Espanha não está conseguindo alcançar governos estáveis ​​que promovam as políticas exigidas pelo país. 1.

Crise econômica A recessão de 2008 prejudicou a economia global e deixou feridas profundas na Espanha.

Alguns dados econômicos melhoraram: hoje o PIB da Espanha cresce a uma taxa de 2,52%, diferente do ano dramático de 2009, quando o crescimento anual foi negativo em 3,57%, segundo dados do Banco Mundial. No entanto, ainda persistem problemas estruturais, como a taxa de desemprego.

Antes da crise, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, havia pouco menos de 2 milhões de desempregados no país.

No fim de 2012, esse número chegava a pouco mais de 6 milhões. Apesar da melhoria da economia e da criação de empregos, ainda não foi possível atingir os níveis de antes da crise de 2008. "A crise econômica deu origem a uma política que rompeu com o sistema tradicional, em que dois partidos, o PP (hoje liderado por Pablo Casado) e o PSOE, se alternavam no poder", disse à BBC News Mundo Pablo Simón, doutor em Ciência Política pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. O doutor em Ciência Política pela Universidade Harvard José Fernández-Albertos também disse que "ainda há eleitores que atribuem a culpa pela crise e os problemas estruturais do país à má administração de populares e socialistas". O castigo do eleitorado pelas consequências da crise atingiu fortemente o PSOE. O socialista José Luis Rodríguez Zapatero estava em seu segundo mandato quando se instalou a recessão de 2008.

Nas eleições gerais de 2011, o candidato socialista Alfredo Pérez Rubalcaba sofreu os efeitos do desastre: o PSOE perdeu 4,3 milhões de votos e 59 deputados.

E o seu rival de direita, Mariano Rajoy, alcançou um resultado histórico ao obter 186 cadeiras no Parlamento. No entanto, aquele seria o último governo com uma clara maioria no Parlamento espanhol, composto por 350 cadeiras e onde 176 são necessárias para governar. O descontentamento com a precariedade econômica se traduziu nas ruas com o movimento conhecido como 15-M, que protestava contra as medidas de austeridade econômica impostas para amenizar os efeitos da crise.

Desse movimento, surgiu o partido Podemos, liderado pelo professor universitário Pablo Iglesias e que se posicionou à esquerda, mas insatisfeito com os socialistas. Assim, começou uma nova era na Espanha e a principal causa da estagnação institucional: fragmentação política e pluripartidarismo. "A polarização política é algo que geralmente surge após desastres econômicos.

É a consequência da perda de condições de vida que a população acreditava que estavam garantidas", analisa a doutora em história contemporânea Nere Basabe. 2.

Fragmentação política "Passamos do sistema bipartidário para uma crescente fragmentação política entre esquerda e direita e também dentro desses mesmos blocos", argumenta Simón.

"Os partidos se afastaram uns dos outros e a maioria no Parlamento ficou mais difícil de articular, levando a governos cada vez mais fracos." O colapso do bipartidarismo que começou com o Podemos continuou com o surgimento, em 2015, do Ciudadanos, em nível nacional — um partido liberal e de centro-direita fundado na Catalunha em 2006. Mas as rupturas não terminam aí.

O partido de extrema-direita Vox conquistou 24 cadeiras em abril passado e agora, para as eleições de novembro, foi adicionada a candidatura do Más País, uma plataforma que se separou do Podemos por divergências políticas. Pablo Simón acredita que as próximas eleições não resolverão um problema que ele considera mais de governabilidade que de governo. Ou seja, o fato de um candidato sair vencedor não significa que ele terá a estabilidade necessária para governar. "Enquanto os partidos continuarem vendo a oportunidade de crescer eleitoralmente ou de seus rivais diminuírem, os políticos pensarão no curto prazo e apostarão em mais soluções estratégicas internas do que no interesse geral", explica Simón. Isso ficou especialmente evidente nas últimas eleições.

O PSOE e o Ciudadanos, dois partidos que teoricamente convergem em várias ideias políticas, rejeitaram formar uma aliança que alcançaria 180 deputados.

Segundo Simón, isso ocorreu justamente devido a suas próprias estratégias partidárias. Para Fernández-Albertos, uma parte importante do impasse também se deve ao fato de que, internamente, os blocos — tanto da esquerda quanto da direita — se tornaram mais heterogêneos. "O Podemos capturou uma parte da esquerda que era anteriormente do PSOE, e a direita diversificou seu espaço em um partido liberal e urbano, o Ciudadanos, e também para uma ala mais reacionária, com o Vox", diz Fernández-Albertos. No entanto, no meio dessa polarização política, também surgiu o problema em relação à Catalunha. 3.

A crise catalã "O problema catalão não é algo novo.

Desde o século 19 se arrasta um problema endêmico que é a incorporação de nacionalidades periféricas em uma ideia da Espanha.

Depois de (Francisco) Franco, durante a transição democrática, tanto os partidos nacionalistas basco como catalão agiram como articuladores e favoreceram a formação de governos, algo que continuou nas legislaturas seguintes", diz a historiadora Nere Basabe. Mas agora essa situação mudou.

A crise econômica de 2008 também explica a ascensão da defesa pela independência da Catalunha, uma posição que os distanciou do papel dos partidos "que fazem acordos", como diz Fernández-Albertos. "O bloco dos partidos catalães geralmente oscila entre 17 e 21 assentos, de forma estável, representando assim um importante apoio para os partidos que não alcançam a maioria absoluta", explica Simón. O governo regional da Catalunha realizou um plebiscito de independência em 2017, que o Tribunal Constitucional espanhol considerou ilegal e terminou com a sentença de prisão de seus principais líderes, causando protestos maciços e uma maior fratura política. "Agora, como resultado do processo de soberania, esses partidos optaram pela independência e isso os afastou da capacidade de fazer acordos com os partidos de esquerda e direita", diz Fernández-Albertos. Mas a crise catalã não apenas distanciou os partidos nacionalistas dos não nacionalistas, mas também promoveu fraturas internas, como as do Partido Popular. "O Vox está mostrando pela primeira vez na Espanha a cara de uma direita populista radical que está intimamente ligada à crise catalã e seus efeitos.

O Vox não descobre um novo eleitorado, mas rouba os do PP.

O que dizem as pesquisas é que 80% dos eleitores do Vox já pertenciam ao Partido Popular", explica Simón. Parte do eleitorado do Vox acredita que, durante a democracia, foram feitas concessões demais aos partidos nacionalistas catalães e que agora é necessária uma posição mais firme para contrariar suas demandas.

A visão é compartilhada pelo Ciudadanos, outro partido que dividiu os votos da direita. 4.

Tendência histórica É comum a presença de "duas Espanhas" ao longo da história.

Há quem creia que existe uma divisão latente e insolúvel, especialmente desde a Guerra Civil, entre a direita e a esquerda. "Muitos querem negar isso, mas a verdade é que essa dualidade existe, e não apenas desde a Guerra Civil.

Poderíamos dizer que as dificuldades de governabilidade ocorrem desde a criação da Primeira República, em 1812", diz Basabe. A historiadora acredita que a exceção à falta de consenso ocorreu durante a Transição Espanhola, em 1975, quando o país mudou do regime ditatorial de Franco para o regime democrático.

Ela aponta que havia uma "verdadeira vontade de virar a página e fechar as feridas criadas na Guerra Civil e durante o governo de Franco". "Depois da ditadura, e junto com a criação da estabilidade econômica com o Estado de bem-estar social, essa dualidade adormeceu.

Mas, paradoxalmente, a divisão foi renovada por quem não viveu esses capítulos da história", diz Basabe.